Por Dra. Ana Paula Buiati
Médica-Veterinária Nefro-Intensivista
Pós-graduada em Nefrologia e Urologia Veterinária
STI Veterinária – Uberlândia/MG
A Doença Renal Crônica (DRC) em gatos é definida como a perda progressiva e irreversível da função renal por um período superior a três meses.
Trata-se da doença não infecciosa mais comum em gatos idosos e uma das principais causas de morte nessa espécie. Estima-se que afete entre 1% e 3% de todos os gatos e mais de 30% dos animais com mais de 10 anos (Sparkes et al., 2016; IRIS, 2023).
Embora não tenha cura, a DRC felina é altamente manejável. O diagnóstico precoce, aliado ao acompanhamento de um nefrologista veterinário, pode prolongar significativamente a qualidade e a expectativa de vida do paciente.
Por que a DRC em gatos é diferente da de cães?
Os gatos apresentam características fisiológicas únicas que os tornam mais vulneráveis à Doença Renal Crônica.
Diferentemente dos cães, os felinos são carnívoros estritos e metabolizam proteínas continuamente, produzindo maior carga urêmica. Além disso, desenvolvem hipertensão arterial secundária com maior frequência, acelerando a progressão da doença.
Outro fator importante é que a fibrose intersticial — processo de cicatrização que substitui o tecido renal saudável — costuma ocorrer de forma mais agressiva nos gatos (Brown et al., 2016).
Sistema de Estadiamento IRIS: o mapa da doença
O sistema IRIS (International Renal Interest Society) é utilizado mundialmente para classificar a gravidade da Doença Renal Crônica.
IRIS Estágio 1
- Creatinina < 1,6 mg/dL
- SDMA < 18 µg/dL
- Geralmente sem sinais clínicos
- Diagnóstico realizado por exames de triagem
- Recomenda-se monitoramento semestral
IRIS Estágio 2
- Creatinina entre 1,6 e 2,8 mg/dL
- SDMA entre 18 e 25 µg/dL
- Sinais clínicos leves ou ausentes
- Início do manejo nutricional, principalmente com restrição de fósforo
IRIS Estágio 3
- Creatinina entre 2,9 e 5,0 mg/dL
- SDMA entre 26 e 38 µg/dL
- Sinais clínicos moderados a graves
- Necessidade de tratamento médico ativo e monitoramento frequente
IRIS Estágio 4
- Creatinina > 5,0 mg/dL
- SDMA > 38 µg/dL
- Uremia grave
- Alto risco de vida
- Hemodiálise pode ser indicada durante episódios de descompensação
Subestadiamento
Além do estágio da doença, dois fatores são fundamentais para definir o prognóstico:
Pressão arterial sistólica (PAS)
- Normotenso: < 140 mmHg
- Pré-hipertenso: 140–159 mmHg
- Hipertenso: 160–179 mmHg
- Severamente hipertenso: ≥ 180 mmHg
Proteinúria (Relação UPC)
- Não proteinúrico: < 0,2
- Limítrofe: 0,2–0,4
- Proteinúrico: > 0,4
Esses parâmetros influenciam diretamente as decisões terapêuticas (IRIS, 2023).
Tratamento da DRC Felina por estágio
Manejo nutricional
A dieta renal é uma das intervenções com maior evidência científica para retardar a progressão da Doença Renal Crônica em gatos.
As principais recomendações incluem:
- Restrição de fósforo (principal medida terapêutica);
- Moderação proteica em estágios avançados;
- Aumento da ingestão de água, preferindo dietas úmidas;
- Suplementação de potássio quando indicada.
Um estudo clínico randomizado demonstrou que gatos alimentados com dieta renal terapêutica apresentaram sobrevida significativamente maior em comparação aos alimentados com dieta convencional (Ross et al., 2006).
Controle da pressão arterial
A hipertensão arterial sistêmica está presente em até 65% dos gatos com DRC e representa um fator independente para progressão da lesão renal.
Nos felinos, o tratamento de escolha é a amlodipina, um bloqueador dos canais de cálcio (ACVIM, 2018).
Controle da proteinúria
A proteinúria persistente (UPC > 0,4) está associada à evolução mais rápida da doença e menor sobrevida.
Os medicamentos mais utilizados incluem:
- Benazepril (inibidor da ECA);
- Telmisartana (bloqueador do receptor de angiotensina).
(Syme et al., 2006)
Correção da anemia
A anemia não regenerativa ocorre devido à menor produção de eritropoietina pelos rins e à depressão medular causada pela uremia.
O tratamento pode incluir:
- Darbepoetina;
- Suplementação de ferro, quando necessária.
Quando a hemodiálise é indicada?
A hemodiálise não é o tratamento padrão da DRC estável.
Ela é indicada principalmente durante episódios de descompensação aguda, quando o paciente apresenta:
- Uremia grave;
- Vômitos persistentes;
- Prostração intensa;
- Hipercalemia;
- Outras complicações que não respondem ao tratamento clínico convencional.
Nessas situações, a hemodiálise atua como uma ponte para estabilização, permitindo que o gato recupere condições clínicas para retornar ao tratamento ambulatorial (ACVNU, 2021).
Referências
- IRIS CKD Guidelines 2023 (iris-kidney.com)
- Sparkes AH et al. ISFM Consensus Guidelines on Feline CKD. Journal of Feline Medicine and Surgery. 2016;18(3):219–239.
- Ross SJ et al. Journal of the American Veterinary Medical Association. 2006;229(6):949–957.
- Syme HM et al. Journal of the American Veterinary Medical Association. 2002;220(12):1799–1804.
- ACVIM Consensus Statement on Hypertension. Journal of Veterinary Internal Medicine. 2018.
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A Dra. Ana Paula Buiati realiza atendimento por telemedicina para todo o Brasil e consultas presenciais em Uberlândia/MG, sempre em conjunto com o médico-veterinário responsável pelo paciente.
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Sobre a autora
A Dra. Ana Paula Buiati é médica-veterinária nefro-intensivista, fundadora e diretora clínica da STI Veterinária.
Possui pós-graduação em Nefrologia e Urologia Veterinária, além de capacitações em Medicina Intensiva Veterinária, Nefro-Intensivismo, Hemodiálise e Diálise Peritoneal.
Com mais de 15 anos de experiência em internação, pronto-atendimento e terapia intensiva de pequenos animais, já conduziu mais de 400 sessões de hemodiálise e 100 sessões de diálise peritoneal em pacientes de alta complexidade.
Atua com telemedicina em nefrologia e nefro-intensivismo para todo o Brasil, oferecendo suporte especializado 24 horas a clínicos, intensivistas e hospitais parceiros.
Também é coordenadora científica e técnica dos programas do Vet360Master.
STI Veterinária
www.stiveterinaria.com.br