Por Dra. Ana Paula Buiati
Médica-Veterinária Nefro-Intensivista
Pós-graduada em Nefrologia e Urologia Veterinária
STI Veterinária – Uberlândia/MG
Há pacientes que jamais esquecemos.
A Samanta, uma cadela sem raça definida, chegou à STI Veterinária com insuficiência renal grave, prognóstico reservado e dois tutores — Mateus e Andreia — que se recusavam a desistir.
O que aconteceu nos meses seguintes tornou-se um dos casos mais marcantes da história da clínica: uma recuperação completa da função renal, conquistada sessão após sessão por meio da diálise peritoneal.
Neste artigo você vai entender:
- O que é a diálise peritoneal veterinária;
- Quando ela é indicada;
- Como funciona o tratamento;
- Em quais casos ela pode salvar vidas;
- E conhecer a história real da Samanta.
O que é a diálise peritoneal veterinária?
A Diálise Peritoneal (DP) é uma modalidade de terapia de substituição renal que utiliza o próprio peritônio — membrana que reveste a cavidade abdominal — como filtro biológico natural.
Diferentemente da hemodiálise, que utiliza uma máquina para remover toxinas do sangue, a diálise peritoneal aproveita a capacidade natural do organismo para realizar essas trocas (Dzyban et al., 1997; Langston, 2011).
O tratamento funciona da seguinte forma:
- Implanta-se um cateter na cavidade abdominal;
- Uma solução dialisante estéril é infundida;
- Essa solução permanece em contato com o peritônio durante um período determinado;
- Toxinas, excesso de eletrólitos e líquidos passam do sangue para essa solução;
- O líquido é drenado e substituído por uma nova solução.
Cada ciclo completo recebe o nome de troca.
Diálise Peritoneal x Hemodiálise
| Critério | Diálise Peritoneal | Hemodiálise |
|---|---|---|
| Acesso | Cateter peritoneal | Cateter venoso central |
| Velocidade de depuração | Mais lenta e gradual | Mais rápida |
| Pacientes muito pequenos (<3 kg) | Mais viável | Mais desafiadora |
| Equipamentos necessários | Cateter e solução dialisante | Máquina de hemodiálise especializada |
| Duração do tratamento | Contínuo ou intermitente por dias/semanas | Sessões de 3 a 5 horas |
Quando a diálise peritoneal é indicada?
A técnica pode ser indicada em diversas situações clínicas.
Entre as principais:
- Lesão Renal Aguda quando a hemodiálise não está disponível;
- Pacientes de pequeno porte;
- Oligúria ou anúria refratárias ao tratamento convencional;
- Pacientes hemodinamicamente instáveis;
- Necessidade de remoção lenta e contínua de toxinas;
- Terapia de transição após sessões de hemodiálise;
- Hipotermia grave com instabilidade cardiovascular.
O caso da Samanta: uma recuperação que marcou a história da STI Veterinária
Caso clínico real — STI Veterinária, Uberlândia/MG
Vídeo disponível no canal oficial da STI Veterinária no YouTube.
A Samanta chegou à STI Veterinária apresentando insuficiência renal grave.
Os exames demonstravam:
- Creatinina criticamente elevada;
- Azotemia severa;
- Distúrbios eletrolíticos importantes;
- Produção urinária extremamente reduzida.
Sem terapia de substituição renal, as perspectivas eram bastante desfavoráveis.
Foi então que, em conjunto com os tutores Mateus e Andreia, a Dra. Ana Paula Buiati optou pelo início da diálise peritoneal.
Após a implantação do cateter, iniciaram-se as trocas diárias.
Durante todo o tratamento eram monitorados continuamente:
- Produção urinária;
- Eletrólitos;
- Creatinina;
- Estado clínico;
- Parâmetros vitais.
O tratamento não durou dias.
Durou meses.
Foram meses de ajustes, monitoramento intensivo e decisões clínicas tomadas diariamente.
Pouco a pouco, os exames começaram a mostrar melhora.
Os rins voltaram a recuperar sua capacidade de filtração.
A Samanta recebeu alta com recuperação completa da função renal.
Infelizmente, meses depois, já em casa e sem necessidade de diálise, foi diagnosticada com cinomose. A intensa batalha enfrentada anteriormente havia comprometido sua imunidade, e ela não conseguiu superar a nova doença.
Mesmo assim, sua história permanece como um dos maiores exemplos do potencial da nefrologia intensiva veterinária.
“Esta é a história que melhor define nosso propósito. Uma história de vitória, resiliência e, por fim, uma lição sobre a fragilidade da vida. O legado da Samanta vive em cada paciente que salvamos desde então.”
— Dra. Ana Paula Buiati
Como funciona o protocolo de diálise peritoneal na STI Veterinária?
O protocolo é individualizado para cada paciente.
De forma geral inclui:
- Implantação cirúrgica do cateter;
- Cálculo do volume por quilograma de peso corporal;
- Ajuste do tempo de permanência da solução;
- Definição da frequência das trocas conforme a gravidade;
- Monitoramento diário de exames laboratoriais;
- Comunicação constante com os tutores por WhatsApp.
Possíveis complicações
Como qualquer terapia intensiva, a diálise peritoneal exige acompanhamento especializado.
As principais complicações incluem:
Peritonite bacteriana
É a complicação mais importante.
A prevenção depende de técnica asséptica rigorosa e monitoramento constante.
Obstrução do cateter
Pode ocorrer pela presença de fibrina ou omento.
Normalmente é resolvida com reposicionamento ou lavagem.
Hiperglicemia
As soluções dialisantes contêm glicose.
Pacientes diabéticos exigem monitoramento mais frequente.
Hipoalbuminemia
Como parte das proteínas também pode ser perdida durante a diálise, alguns pacientes necessitam de suporte nutricional específico.
Prognóstico
O prognóstico depende principalmente de:
- Causa da lesão renal;
- Tempo até o início do tratamento;
- Gravidade do quadro;
- Doenças associadas.
Estudos publicados no Journal of Veterinary Internal Medicine demonstram taxas de sobrevida entre 30% e 60% em cães e gatos com Lesão Renal Aguda tratados com diálise peritoneal.
Pacientes com causas potencialmente reversíveis — como intoxicações, pielonefrites ou lesões isquêmicas — apresentam taxas de recuperação ainda maiores.
O caso da Samanta demonstra exatamente esse cenário: um quadro inicialmente considerado extremamente grave que evoluiu para recuperação completa da função renal graças ao suporte dialítico e ao acompanhamento intensivo.
Referências
- Dzyban LA et al. Peritoneal Dialysis in Dogs and Cats. Journal of the American Animal Hospital Association. 1997.
- Cooper RL, Labato MA. Peritoneal Dialysis in Cats with Acute Kidney Injury. Journal of Veterinary Internal Medicine. 2011.
- Beckel NF et al. Peritoneal Dialysis in Dogs with Pyometra. Journal of Veterinary Emergency and Critical Care. 2005.
- Langston CE. Hemodialysis and Peritoneal Dialysis. In: Bartges & Polzin. Nephrology and Urology of Small Animals. 2011.
- ACVIM Consensus Statement – Acute Kidney Injury.
- IRIS AKI Guidelines 2016.
- Dados clínicos internos da STI Veterinária (2015–2025).
Precisa de uma avaliação especializada?
A Dra. Ana Paula Buiati realiza atendimento por telemedicina para todo o Brasil e consultas presenciais em Uberlândia/MG.
Os agendamentos são realizados pelo WhatsApp da STI Veterinária.
Importante: a consulta especializada deve ser realizada em conjunto com o médico-veterinário responsável pelo paciente.
Sobre a autora
A Dra. Ana Paula Buiati é médica-veterinária nefro-intensivista, fundadora e diretora clínica da STI Veterinária.
Possui pós-graduação em Nefrologia e Urologia Veterinária, além de capacitações em Medicina Intensiva Veterinária, Nefro-Intensivismo, Hemodiálise e Diálise Peritoneal.
Com mais de 15 anos de experiência, já conduziu mais de 400 sessões de hemodiálise e 100 sessões de diálise peritoneal em pacientes de alta complexidade.
Atua com telemedicina em nefrologia e nefro-intensivismo para todo o Brasil, oferecendo suporte especializado a médicos-veterinários, intensivistas e hospitais parceiros.
Também é coordenadora científica e técnica dos programas do Vet360Master.
STI Veterinária
www.stiveterinaria.com.br