Alimentação para Cães e Gatos com Doença Renal: O Que Podem Comer e Quais Alimentos Devem Evitar
Por Dra. Ana Paula Buiati
Médica-Veterinária Nefro-Intensivista
Pós-graduada em Nefrologia e Urologia Veterinária
STI Veterinária – Uberlândia/MG
A alimentação é um dos pilares mais importantes no tratamento da Doença Renal Crônica (DRC) em cães e gatos.
Estudos clínicos randomizados demonstraram que gatos alimentados com dietas renais terapêuticas apresentam sobrevida significativamente maior quando comparados aos que permanecem em alimentação convencional — chegando a viver até três vezes mais em alguns casos (Ross et al., 2006).
Em cães, benefícios semelhantes também foram demonstrados por meio da restrição adequada de fósforo e da adaptação do teor proteico conforme o estágio da doença (Jacob et al., 2002).
Quais nutrientes precisam ser controlados?
Fósforo: o nutriente mais importante
A hiperfosfatemia (aumento do fósforo no sangue) é uma das consequências mais importantes da Doença Renal Crônica e um dos principais fatores responsáveis pela progressão da lesão renal.
Quando os rins deixam de eliminar o fósforo adequadamente, ocorre aumento dos hormônios PTH e FGF-23, desencadeando:
- Calcificação vascular;
- Hiperparatireoidismo secundário;
- Progressão da fibrose renal;
- Piora da função dos rins.
Por esse motivo, a restrição de fósforo é considerada uma das medidas nutricionais mais importantes para pacientes renais (Polzin, 2011; IRIS, 2023).
Proteína: restrição moderada e individualizada
A quantidade de proteína ideal ainda é tema de debate na medicina veterinária.
Embora o metabolismo das proteínas produza resíduos nitrogenados que se acumulam quando os rins estão comprometidos, uma restrição excessiva pode causar perda muscular e desnutrição.
Isso é especialmente importante nos gatos, que são carnívoros estritos e possuem elevada necessidade proteica mesmo em repouso.
As diretrizes da IRIS e do ACVIM recomendam:
- Restrição proteica moderada;
- Principalmente nos estágios 3 e 4 da DRC;
- Preferência por proteínas de alta digestibilidade e alto valor biológico.
(Bartges, 2012)
Sódio e potássio
O sódio deve ser controlado principalmente em pacientes com:
- Hipertensão arterial;
- Retenção de líquidos;
- Sobrecarga hídrica.
O potássio também merece atenção.
Hipocalemia
É relativamente comum em gatos com Doença Renal Crônica e pode causar:
- Fraqueza muscular;
- Dificuldade para caminhar;
- Redução do apetite.
Hipercalemia
Pode ocorrer em estágios avançados da doença e representa uma emergência médica, devido ao risco de arritmias cardíacas.
Alimentos que cães e gatos com doença renal devem evitar
Alguns alimentos podem acelerar a progressão da doença renal ou causar complicações importantes.
Alimentos ricos em fósforo
Evite oferecer:
- Leite e derivados;
- Fígado;
- Rim;
- Coração;
- Sardinha;
- Atum enlatado;
- Embutidos.
Alimentos ricos em sódio
O excesso de sal favorece hipertensão e retenção de líquidos.
Devem ser evitados:
- Enlatados;
- Embutidos;
- Petiscos industrializados;
- Biscoitos para pets com alto teor de sódio.
Petiscos convencionais
Grande parte dos snacks comerciais apresenta:
- Muito fósforo;
- Muito sódio;
- Quantidade inadequada de proteínas.
Sempre converse com o médico-veterinário antes de oferecer qualquer petisco.
Alimentos tóxicos
Independentemente da doença renal, nunca ofereça:
- Uvas;
- Uvas-passas;
- Cebola;
- Alho;
- Xilitol.
Esses alimentos podem causar intoxicações graves e agravar ainda mais a função renal.
Rações terapêuticas: vale a pena?
As dietas renais comerciais foram desenvolvidas especificamente para atender às necessidades nutricionais de cães e gatos com Doença Renal Crônica.
Entre as principais opções disponíveis no Brasil estão:
- Hill’s Prescription Diet k/d;
- Royal Canin Renal;
- Purina Pro Plan Veterinary Diets NF.
Essas formulações oferecem:
- Restrição de fósforo;
- Proteínas altamente digestíveis;
- Ácidos graxos ômega-3 com efeito renoprotetor;
- Alta palatabilidade para pacientes com redução do apetite.
(Brown et al., 1998)
O que fazer quando o pet não quer comer?
A perda de apetite é um dos maiores desafios no tratamento da Doença Renal Crônica, principalmente em gatos.
Algumas estratégias podem ajudar:
- Aquecer levemente a comida para intensificar o aroma;
- Oferecer pequenas porções várias vezes ao dia;
- Misturar caldo de frango caseiro sem temperos, alho, cebola ou sal à alimentação úmida;
- Fazer a troca entre diferentes marcas de dieta renal de forma gradual.
Quando a anorexia persiste, o médico-veterinário pode indicar estimulantes de apetite, como a mirtazapina, aprovada para uso em felinos (Quimby et al., 2013).
Importante: gatos que permanecem mais de 48 horas sem se alimentar apresentam elevado risco de desenvolver lipidose hepática, uma complicação potencialmente grave.
Referências
- Ross SJ et al. Journal of the American Veterinary Medical Association. 2006;229(6):949–957.
- Jacob F et al. Journal of the American Veterinary Medical Association. 2002;220(8):1163–1170.
- Bartges JW. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice. 2012;42(4):669–692.
- Brown SA et al. Journal of Laboratory and Clinical Medicine. 1998;131(5):447–455.
- Polzin DJ. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice. 2011;41(1):15–30.
- Quimby JM et al. Journal of Feline Medicine and Surgery. 2013;15(3):256–261.
- IRIS CKD Guidelines 2023.
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A Dra. Ana Paula Buiati realiza atendimento por telemedicina para todo o Brasil e consultas presenciais em Uberlândia/MG.
Os agendamentos são realizados pelo WhatsApp da STI Veterinária.
Importante: a consulta deve ser realizada em conjunto com o médico-veterinário responsável pelo paciente.
Sobre a autora
A Dra. Ana Paula Buiati é médica-veterinária nefro-intensivista, fundadora e diretora clínica da STI Veterinária.
Possui pós-graduação em Nefrologia e Urologia Veterinária, além de capacitações em Medicina Intensiva Veterinária, Nefro-Intensivismo, Hemodiálise e Diálise Peritoneal.
Com mais de 15 anos de experiência em internação, pronto-atendimento e terapia intensiva em pequenos animais, já realizou mais de 400 sessões de hemodiálise e 100 sessões de diálise peritoneal em pacientes de alta complexidade.
Atua com telemedicina em nefrologia e nefro-intensivismo para todo o Brasil, oferecendo suporte especializado a médicos-veterinários, intensivistas e hospitais parceiros.
Também é coordenadora científica e técnica dos programas do Vet360Master.
STI Veterinária
www.stiveterinaria.com.br