Por Dra. Ana Paula Buiati
Médica-Veterinária Nefro-Intensivista
Pós-graduada em Nefrologia e Urologia Veterinária
STI Veterinária – Uberlândia/MG
Introdução
A diálise peritoneal (DP) é uma terapia de substituição renal que utiliza o próprio peritônio do paciente — a membrana que reveste a cavidade abdominal — como filtro biológico natural.
Quando os rins deixam de eliminar toxinas urêmicas, controlar os eletrólitos ou manter o equilíbrio hídrico, a diálise peritoneal torna-se uma importante alternativa de suporte.
Na STI Veterinária, em Uberlândia (MG), já foram realizadas mais de 100 sessões de diálise peritoneal em cães e gatos de alta complexidade.
Este guia apresenta o protocolo clínico utilizado pela equipe, desenvolvido ao longo de mais de uma década de prática clínica e fundamentado na literatura científica internacional.
Princípio fisiológico: por que a diálise peritoneal funciona?
O peritônio possui extensa vascularização e atua como uma membrana semipermeável.
A depuração ocorre por três mecanismos principais:
Difusão
Toxinas urêmicas, como ureia, creatinina, potássio e fósforo, atravessam o peritônio seguindo o gradiente de concentração.
É o mecanismo predominante nas primeiras duas horas de cada ciclo.
Ultrafiltração
A glicose presente na solução dialisante cria um gradiente osmótico capaz de remover água do organismo.
Absorção linfática
Parte do líquido é absorvida pelos vasos linfáticos do peritônio.
Essa absorção normalmente varia entre 0,5 e 2,0 mL/min, reduzindo parcialmente o volume drenado.
Referência: Blake & Daugirdas. Manual de Diálise. 4ª edição.
Indicações clínicas
| Indicação | Critério Clínico |
|---|---|
| Lesão Renal Aguda (IRA) | Débito urinário < 0,5 mL/kg/h por mais de 12 horas sem resposta à fluidoterapia |
| Azotemia grave | Ureia >100 mg/dL ou creatinina >8 mg/dL (cães) / >6 mg/dL (gatos) |
| Hipercalemia refratária | Potássio >6,5 mEq/L associado a alterações eletrocardiográficas |
| Sobrecarga hídrica | Edema pulmonar refratário ao tratamento clínico |
| Intoxicações dialisáveis | Etilenoglicol, barbitúricos, salicilatos, etanol |
| DRC estágio IV descompensada | Uremia sintomática refratária ao tratamento conservador |
| Hipotermia grave | Temperatura corporal inferior a 32 °C |
Avaliação pré-dialítica
Exames laboratoriais obrigatórios
- Hemograma completo
- Ureia
- Creatinina
- Sódio
- Potássio
- Cloro
- Cálcio ionizado
- Fósforo
- Albumina sérica
- Gasometria venosa
- TP
- TTPA
- Contagem de plaquetas
Exames de imagem
- Radiografia torácica
- Ultrassonografia abdominal
Monitoramento basal
- Sondagem vesical
- Pressão arterial
- Temperatura corporal
- Frequência cardíaca
- Frequência respiratória
- Saturação de oxigênio
Protocolo STI de execução
Passo 1 — Escolha do dialisado
| Solução | Osmolaridade | Principal indicação |
|---|---|---|
| Dextrose 1,5% | 345 mOsm/L | Manutenção |
| Dextrose 2,5% | 395 mOsm/L | Sobrecarga hídrica moderada |
| Dextrose 4,25% | 484 mOsm/L | Emergências com edema pulmonar e anúria |
Recomendações
- Aquecer a bolsa entre 38 e 39 °C.
- Nunca utilizar micro-ondas.
- Adicionar heparina nas primeiras 48–72 horas quando indicado.
- Corrigir hipocalemia adicionando KCl conforme necessidade.
- Utilizar técnica asséptica rigorosa.
Passo 2 — Volume de infusão
- Primeiras 24 horas: 10 mL/kg
- Volume padrão: 30–40 mL/kg
- Gatos: máximo 30–35 mL/kg
- Cães grandes podem tolerar até 45–50 mL/kg
Se houver taquipneia ou dispneia durante a infusão, reduzir imediatamente o volume.
Passo 3 — Tempo de permanência
| Objetivo | Tempo recomendado |
|---|---|
| Hipercalemia | 60–90 minutos |
| Intoxicações | 60–90 minutos |
| Lesão Renal Aguda | 2–4 horas |
| Doença Renal Crônica | 4–6 horas |
| Sobrecarga hídrica | Máximo de 1–2 horas |
Passo 4 — Avaliação do efluente
Volume recuperado esperado:
- 80–100%: normal
- 70–80%: aceitável
- <70%: investigar obstrução, extravasamento ou absorção excessiva
Aspecto do líquido
- Claro → normal
- Turvo → suspeita de peritonite
- Hemorrágico → investigar trauma
- Presença de fibrina → considerar aumento da heparina
Passo 5 — Metas bioquímicas
| Fase | Objetivos |
|---|---|
| Estabilização | Ureia 60–100 mg/dL, Creatinina 4–6 mg/dL, Potássio <5,5 mEq/L |
| Manutenção | Ureia <80 mg/dL |
| Redução das sessões | Débito urinário >1 mL/kg/h e melhora clínica sustentada |
Monitoramento durante a diálise
| Parâmetro | Frequência |
|---|---|
| Frequência cardíaca e respiratória | A cada 2 horas |
| Pressão arterial | A cada 6–8 horas |
| Débito urinário | A cada 4 horas |
| Ureia, creatinina e eletrólitos | A cada 8–12 horas na fase aguda |
| Albumina | A cada 48–72 horas |
| Gasometria | A cada 12–24 horas |
| Citologia do efluente | A cada 24–48 horas |
| Peso corporal | Duas vezes ao dia |
Critérios para suspensão da diálise
A interrupção da terapia pode ser considerada quando o paciente apresenta:
- Débito urinário superior a 1 mL/kg/h por 24–48 horas;
- Normalização sustentada de ureia e creatinina;
- Potássio inferior a 5,5 mEq/L;
- Correção da acidose metabólica;
- Ausência de edema pulmonar;
- Melhora clínica consistente, com retorno do apetite e ausência de vômitos.
A redução deve ocorrer gradualmente:
4 sessões → 3 → 2 → 1 → suspensão, sempre acompanhada de monitoramento laboratorial.
Literatura científica
- Blake PG; Daugirdas JT. Manual de Diálise. 4ª ed.
- Chacar FC et al. Diálise peritoneal em cães e gatos. 2014.
- Cooper RL; Labato MA. Peritoneal Dialysis in Veterinary Medicine. 2011.
- Guiot EG. Reversão da injúria renal aguda após diálise peritoneal em cão. 2015.
- Labato MA. Peritoneal Dialysis in Emergency and Critical Care Medicine. 2000.
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A STI Veterinária oferece atendimento presencial em Uberlândia (MG) e telemedicina em nefrologia e nefro-intensivismo para todo o Brasil.
Sobre a autora
A Dra. Ana Paula Buiati é médica-veterinária nefro-intensivista, fundadora e diretora clínica da STI Veterinária.
Possui pós-graduação em Nefrologia e Urologia Veterinária, além de capacitações em Medicina Intensiva Veterinária, Nefro-Intensivismo, Hemodiálise e Diálise Peritoneal.
Com mais de 15 anos de experiência, já conduziu mais de 400 sessões de hemodiálise e 100 sessões de diálise peritoneal em pacientes de alta complexidade.
Atua com telemedicina em nefrologia e nefro-intensivismo para todo o Brasil e é coordenadora científica e técnica dos programas do Vet360Master.