Complicações da Dialise Peritoneal em Cães e Gatos: Como a STI Previne e Trata

Introdução: Complicações Existem, mas São Previsíveis e Manejáveis

A diálise peritoneal é um procedimento de alta complexidade que salva vidas de cães e gatos com doença renal grave. Como qualquer terapia intensiva, pode apresentar complicações. Conhecê-las antecipadamente — e saber como a equipe as maneja — faz parte de uma decisão informada por parte do tutor.

Neste artigo, detalhamos as principais complicações da diálise peritoneal veterinária, sua frequência, como são detectadas precocemente e os protocolos que a STI Veterinária utiliza para preveni-las e tratá-las. Todas as informações são baseadas em literatura científica revisada por pares e na experiência clínica da equipe, com mais de 100 sessões realizadas.

Referências: Cooper & Labato (2011); Costa (2015); Miorin (2001); Chacar et al. (2014).


1. Peritonite: A Complicação Mais Temida

O que é e por que acontece?

A peritonite é a inflamação do peritônio — membrana que atua como filtro durante a diálise. Ela pode ser:

  • Infecciosa: causada por bactérias ou fungos.
  • Química: provocada por irritação sem infecção, mais comum em gatos expostos a soluções muito ácidas.

Cada conexão e desconexão do cateter representa um potencial ponto de contaminação.

Frequência e fatores de risco

  • Diálise peritoneal veterinária: aproximadamente 1 episódio a cada 6–12 meses de uso contínuo.
  • Diálise peritoneal humana (DPAC): cerca de 1 episódio a cada 18–24 meses, considerada referência de qualidade.

Principais fatores de risco:

  • Cateter sem cuff (Blake);
  • Trocas realizadas fora de ambiente estéril;
  • Sinusite ou infecção dentária concomitante;
  • Imunocomprometimento.

Diagnóstico precoce

Os principais sinais incluem:

  • Efluente turvo ou opaco (primeiro sinal em aproximadamente 80% dos casos);
  • Dor abdominal progressiva durante a infusão;
  • Febre (temperatura retal superior a 39,5°C);
  • Contagem celular do efluente:
    • >100 leucócitos/µL: sinal de alerta;
    • >500 leucócitos/µL: diagnóstico sugestivo de peritonite.
  • Coloração de Gram (resultado entre 4 e 6 horas);
  • Cultura e antibiograma (24 a 72 horas).

Protocolo de tratamento da STI Veterinária

  • Gram positivos (cocos):
    • Vancomicina 30 mg/L no dialisado de permanência longa; ou
    • Cefalotina 500 mg/L.
  • Gram negativos (bacilos):
    • Gentamicina intraperitoneal (0,6 mg/kg); ou
    • Ceftazidima 125 mg/L.

Após o antibiograma, o tratamento é ajustado e mantido por 14 a 21 dias.

Se não houver melhora após cinco dias ou houver infecção fúngica, recomenda-se:

  • Remoção do cateter;
  • Suspensão da diálise por aproximadamente quatro semanas.

Como a STI Veterinária previne a peritonite

  • Técnica asséptica rigorosa em todas as trocas;
  • Utilização de sistema fechado (conjunto em Y);
  • Body cirúrgico permanente para impedir manipulação do cateter;
  • Curativo diário com clorexidina aquosa a 2%.

2. Obstrução do Cateter: Quando o Dialisado Não Drena

Principais causas

O padrão clássico é:

  • A infusão ocorre normalmente;
  • A drenagem torna-se lenta ou impossível;
  • O volume drenado corresponde a menos de 50% do volume infundido.

Manejo realizado pela STI Veterinária

  • Adição de heparina (1.000–2.000 UI/L);
  • Mudança de decúbito do paciente;
  • Flush com solução salina aquecida;
  • Radiografia abdominal;
  • Reposicionamento cirúrgico caso as medidas conservadoras falhem em até 24 horas.

3. Extravasamento de Dialisado

O extravasamento ocorre quando parte do líquido dialítico migra para o tecido subcutâneo.

Principais sinais

  • Edema ao redor do umbigo;
  • Inchaço próximo ao cateter;
  • Volume drenado inferior a 60% em vários ciclos consecutivos;
  • Edema escrotal ou vulvar.

Manejo

  • Redução do volume por ciclo (40 mL/kg → 20–25 mL/kg);
  • Reforço da fixação do cateter;
  • Observação por 24–48 horas nos cateteres Blake;
  • Ultrassonografia para localizar o extravasamento e excluir hérnias.

4. Hipoalbuminemia: Uma Complicação Silenciosa

O peritônio permite perda de albumina durante a diálise. Em protocolos intensivos com dextrose a 4,25%, essa perda pode atingir 10 a 20 g por dia.

Conduta

  • Albumina inferior a 2,5 g/dL
    • Dieta hiperproteica ou suplementação enteral.
  • Albumina inferior a 2,0 g/dL
    • Avaliar infusão intravenosa de albumina humana a 25% (10–20 mL/kg).

Também é recomendado evitar o uso contínuo de soluções de dextrose a 4,25%, reservando-as para situações específicas.


5. Complicações Metabólicas

Hiperglicemia

A glicose presente no dialisado é absorvida progressivamente pelos capilares do peritônio.

Em pacientes diabéticos ou submetidos a soluções entre 2,5% e 4,25%, pode ocorrer glicemia acima de 200 mg/dL.

O manejo inclui:

  • Monitorização da glicemia a cada 6–8 horas;
  • Permanência curta das soluções mais concentradas (máximo de 1–2 horas).

Hipocalemia

Recomenda-se:

  • Monitorar o potássio a cada 12 horas;
  • Se K+ < 3,8 mEq/L: adicionar 2–4 mEq/L de KCl ao dialisado;
  • Se K+ < 3,0 mEq/L: suplementação intravenosa e monitorização cardíaca por ECG.

6. Efusão Pleural e Comprometimento Respiratório

Em alguns pacientes, o líquido pode migrar da cavidade abdominal para o espaço pleural através de defeitos no diafragma.

Sinais clínicos

  • Aumento da frequência respiratória;
  • Esforço respiratório progressivo após o início das sessões.

Manejo

  • Toracocentese imediata quando necessário;
  • Suspensão temporária da diálise por 24 a 48 horas.

Sinais de Alerta para os Tutores


Referências Bibliográficas

  • CHACAR, F.C. et al. Diálise peritoneal em cães e gatos. Veterinária e Zootecnia, 2014.
  • COOPER, R.L.; LABATO, M.A. Peritoneal Dialysis in Veterinary Medicine. Veterinary Clinics of North America, 2011.
  • COSTA, M.F. Clínica de Animais de Companhia. Universidade de Évora, 2015.
  • CULLIS, B. et al. Peritoneal Dialysis for Acute Kidney Injury. Peritoneal Dialysis International, 2018.
  • MIORIN, L.A. Complicações Não Infecciosas em DPAC. Jornal Brasileiro de Nefrologia, 2001.

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Sobre a Autora

Dra. Ana Paula Buiati é médica-veterinária nefro-intensivista, fundadora e diretora clínica da STI Veterinária.

Possui pós-graduação em Nefrologia e Urologia Veterinária, além de capacitações em Medicina Intensiva Veterinária, Hemodiálise e Diálise Peritoneal.

Com mais de 15 anos de experiência, já conduziu mais de 400 sessões de hemodiálise e 100 sessões de diálise peritoneal em pacientes de alta complexidade. Atua com telemedicina em nefrologia e nefro-intensivismo para todo o Brasil, oferecendo suporte 24 horas a clínicos, intensivistas e hospitais parceiros.

Também é coordenadora científica e técnica dos programas do Vet360Master.

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