Por Dra. Ana Paula Buiati
Médica-Veterinária Nefro-Intensivista
Pós-graduada em Nefrologia e Urologia Veterinária
STI Veterinária – Uberlândia/MG
Introdução
O sucesso da diálise peritoneal começa pela escolha correta do acesso à cavidade abdominal.
O cateter representa o elo entre o paciente e o dialisado e pode determinar diretamente o sucesso ou o fracasso do tratamento. Uma escolha inadequada aumenta o risco de complicações como:
- Obstrução;
- Extravasamento;
- Peritonite;
- Necessidade de troca precoce do acesso.
Na prática veterinária brasileira, dois dispositivos são utilizados com maior frequência:
- Cateter de Tenckhoff
- Dreno cirúrgico de Blake
Cada um apresenta indicações, vantagens e limitações específicas.
Neste guia, apresentamos as características de ambos os dispositivos com base na experiência clínica da STI Veterinária e na literatura científica especializada.
Cateter de Tenckhoff
Características técnicas
- Silicone médico biocompatível e radiopaco;
- Alta flexibilidade;
- Disponível em diferentes diâmetros conforme o porte do paciente;
- Extremidade distal com 10 a 16 orifícios laterais;
- Um ou dois cuffs de Dacron para fixação tecidual;
- Implantação cirúrgica com tunelização subcutânea.
Vantagens
- Excelente durabilidade (meses a anos);
- Menor risco de extravasamento;
- Menor incidência de peritonite;
- Fluxo eficiente durante a diálise;
- Melhor opção para pacientes com necessidade de tratamento prolongado ou diálise domiciliar.
Desvantagens
- Custo elevado;
- Necessidade de anestesia geral;
- Procedimento cirúrgico mais demorado;
- Tempo para fixação completa dos cuffs;
- Possibilidade de obstrução pelo omento.
Na STI Veterinária, quando indicado, pode ser realizada omentectomia parcial durante a implantação, reduzindo significativamente esse risco.
Dreno cirúrgico de Blake
Características técnicas
- Silicone do tipo fluted (canelado);
- Quatro canais independentes;
- Diversos calibres disponíveis;
- Inserção percutânea;
- Não necessita tunelização;
- Disponível comercialmente no Brasil.
Vantagens
- Menor custo;
- Implantação rápida;
- Pode ser inserido com sedação leve;
- Excelente opção para pacientes críticos;
- Grande versatilidade para diferentes portes.
Desvantagens
- Menor durabilidade;
- Ausência de cuff de proteção;
- Maior risco de extravasamento;
- Maior risco de infecção quando utilizado por períodos prolongados;
- Geralmente necessita substituição caso a diálise ultrapasse uma semana.
Comparativo completo
| Característica | Cateter de Tenckhoff | Dreno de Blake |
|---|---|---|
| Material | Silicone flexível | Silicone canelado (fluted) |
| Custo aproximado | R$ 1.500–2.400 | R$ 800–1.200 |
| Implantação | Cirúrgica, com anestesia geral | Percutânea, com sedação |
| Tempo de implantação | 30–60 minutos | 10–15 minutos |
| Durabilidade | Meses a anos | 3–7 dias (máximo de 14 dias) |
| Cuff anti-infecção | Sim | Não |
| Risco de extravasamento | Baixo | Moderado |
| Risco de obstrução | Moderado | Baixo |
| Risco de peritonite | Baixo | Moderado |
| Principal indicação | Doença Renal Crônica e tratamentos prolongados | Lesão Renal Aguda e emergências |
Como escolher o cateter?
O dreno de Blake costuma ser indicado quando:
- Existe uma emergência dialítica;
- Há hipercalemia grave;
- Existe edema pulmonar agudo;
- A previsão de diálise é inferior a sete dias;
- O paciente apresenta elevado risco anestésico;
- Há limitação financeira.
O cateter de Tenckhoff costuma ser indicado quando:
- A previsão de diálise ultrapassa sete dias;
- O paciente apresenta Doença Renal Crônica;
- Existe necessidade de diálise peritoneal ambulatorial contínua (DPAC);
- Busca-se maior durabilidade do acesso.
Estratégia utilizada na STI Veterinária
Na maioria dos pacientes críticos, a estratégia utilizada consiste em:
- Implantação inicial do dreno de Blake durante a fase de emergência;
- Estabilização clínica do paciente;
- Substituição para cateter de Tenckhoff entre o quinto e o sétimo dia, quando há previsão de necessidade prolongada de diálise.
Essa abordagem combina rapidez, segurança e melhor custo-benefício para cada fase do tratamento.
Técnica de implantação do dreno de Blake
O protocolo utilizado na STI Veterinária inclui:
- Posicionamento em decúbito dorsal;
- Clipagem ampla e antissepsia;
- Bloqueio anestésico local;
- Sedação leve;
- Incisão paraumbilical;
- Inserção do cateter em direção à pelve;
- Fixação com sutura em “dedo chinês”;
- Teste de infusão e drenagem;
- Curativo estéril e proteção com body cirúrgico.
Cuidados após a implantação
Para o dreno de Blake
- Curativo diário;
- Heparina nas primeiras 48–72 horas quando indicada;
- Avaliação frequente do local de saída;
- Troca do cateter caso haja infecção ou necessidade de uso prolongado.
Para o cateter de Tenckhoff
- Curativos diários nas primeiras semanas;
- Uso contínuo de body cirúrgico;
- Evitar banhos durante o período inicial;
- Antibioticoterapia profilática quando indicada;
- Acompanhamento clínico contínuo.
Referências
- Chacar FC et al. Diálise Peritoneal em Cães e Gatos. 2014.
- Cullis B et al. Peritoneal Dialysis for Acute Kidney Injury. Peritoneal Dialysis International. 2018.
- Guiot EG. Reversão da Injúria Renal Aguda após Diálise Peritoneal em Cão. 2015.
- Melo JKA. Diálise Peritoneal em Cães e Gatos. FUPAC Uberlândia. 2018.
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Sobre a autora
A Dra. Ana Paula Buiati é médica-veterinária nefro-intensivista, fundadora e diretora clínica da STI Veterinária.
Possui pós-graduação em Nefrologia e Urologia Veterinária, além de capacitações em Medicina Intensiva Veterinária, Nefro-Intensivismo, Hemodiálise e Diálise Peritoneal.
Com mais de 15 anos de experiência, já conduziu mais de 400 sessões de hemodiálise e mais de 100 sessões de diálise peritoneal em pacientes de alta complexidade.
Atua com telemedicina em nefrologia e nefro-intensivismo para todo o Brasil e é coordenadora científica e técnica dos programas do Vet360Master.